quarta-feira, 9 de junho de 2010

musical

o zé manel trabalha numa fábrica de rolhas, é um 'observador formiguinha' na unidade de qualidade. todos os dias confirma se as rolhas encaixam bem nos gargalos um a seguir ao outro enquanto bate o pé ao ritmo da música "saca o saca-rolhas, saca o garrafão..."

um dia, ia a caminho do seu bife com batatas fritas e leu, no placard à entrada do refeitório um anúncio: "concurso para o lugar de xico esperto, na secção de contactos externos'
durante o bife e principalmente durante as batatas fritas, pensou que isso seria uma boa oportunidade de alargar a sua experiência profissional e aprender outra dança
os 'xicos espertos' iam às lojas entregar as encomendas das garrafas (já tapadas com as rolhas!)
iria conhecer o destino das rolhas que lhe passavam na frente todos os dias.
e com os 'lojeiros' deveria ser outra cantiga, pensava ele

escreveu três pautas sobre o que o motivava nessa função e uns dias depois,
ao som do vira marcaram-lhe uma entrevista

foi uma dança estranha, com o director de fábrica e o chefe de linha, isto se é possível dançar as cantigas que costumam ir ao festival da eurovisão
a letra da música dizia: "mostre-me lá como é a sua paixão pelos clientes e o que espera desta função" e terminou com "não preciso de mais nada, pois já sei como você é e já aqui tinha quase tudo"
preconceitos à parte, o zé manel conseguiu meter os pés pelos cotovelos e as mãos pelas orelhas
o seu director de fábrica rematou um "O que eu preciso é um 'mangas superesperto'", que são aqueles que vendem as rolhas país fora ao sol e à chuva.
mas isso em vez de acordar o zé manel, atrapalhou-o ainda mais
ele tinha treinado muito bem a salsa latina e ali a música era mais "já fui ao brasil, praia e macau..."

uma semana depois, 18:30 de sexta feira ligam da divisão de pessoal a informar o zé manel que não ia passar à fase seguinte e que ainda ia ter um passito de dança com fios de beck

fim de semana estragado!

apesar dos bailaricos que já estavam marcados para esse fim de semana, passou muito tempo a pensar e a bater o pé ao ritmo da música "saca o saca-rolhas, saca o garrafão..."
aquela cantiga do "... já fui um conquistadoooor!" não lhe saía da cabeça...

na semana seguinte houve uma sessão de feedback da entrevista.
até certa altura as coisas faziam sentido...
de repente o director de fábrica desaperta a camisa até ao umbigo e salta para cima da mesa e dança estilo 'tony manero'
o zé manel conseguiu conter o vómito durante uns dolorosos dez minutos de circo
o dançarino sai-se a cantar: "eu acho que tem de perceber que nunca vai conseguir ser um 'xico esperto'"!!!
(pirueta!) "por mais que se esforce nunca vai conseguir mudar"!!!
(pino) "fiquei muito surpreendido quando mudou para a função de 'formiguinha' mas agora não acho que vá a lado algum"!!!
nesse momento, na cabeça do zé manel só pairava uma frase de um grande amigo seu: "home pequenino, ou aldrabão ou dançarino" enquanto os seus olhos ficavam esbugalhados e a boca escancarada.
era uma boa altura para sair o vómito... mas não saíu.

o zé manel, com as tripas a sair pelas orelhas e o coração na bôca passou o resto da semana a imaginar o porco no espeto
assim a assar em cima das brasas, devagarinho...

o melhor veio uns dias depois
o chefe da divisão de pessoal apanhou o zé manel a jeito, na cantina
puxou-o a uma mesa mais reservada e pôz-se a dançar o raspa
"como se sente?" cantava ele, "o que achou do processo de selecção?"
isto entre parvoíces, como tirar a comida das gengivas com os dedos e coçar partes podendas enquanto comia umas cerejas e abanava a anca ao som de "Ó raspa, raspa, raspa..."
depois explicou ao zé manel que hoje em dia "o que interessa é fazer barulho e entrar na dança. o que se diz não costuma fazer sentido mas quem berra mais alto é que se faz ouvir"!!!
a cereja no topo deste bolo foi terminar o almoço com um hi5 ridículo e atrapalhado
e lá foi ele em estilo "dancing queen" de volta à sua TC na divisão de pessoal

o zé manel não sabe o que pensar disto tudo, olha pela janela e vê um dia de sol fenomenal, não dá troco a ninguém, pega nas coisas e deixa a fábrica a seguir ao almoço a cantar "...qu' esta vida é uma festa!"


nota: esta narrativa é uma ficção pura, qualquer semelhança com a realidade é ocasional coincidência